sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Rios e Enchentes

Nicanor de Freitas Filho
           
            Rio, segundo o Dicionário Michaelis, “1 sm (lat rivu) Corrente contínua de água, mais ou menos caudalosa, que deságua noutra, no mar ou num lago... 3 Grande massa de líquido corrente... 5 Abundância...” Se você for ver do lado da Geografia, rio se forma quando um lençol freático se aflora e a água corre de um ponto mais alto para um ponto mais baixo do relevo. É de grande importância para a humanidade, pois a água é vital, para Agricultura, Pecuária e Pesca. Muitos rios chegam a secar nas estações de estiagem e a maioria dos rios transbordam nas estações chuvosas.  Isto é de grande importância para a Agricultura, pois é uma maneira de se fertilizar as margens dos rios, para serem plantadas com alimentos não perenes, de rápida evolução, como feijão, batata, arroz etc.. Lembro-me perfeitamente de um livro de Geografia da 1ª série ginasial (hoje creio que se chama 6ª série) que dizia que o “...Rio Nilo é o maior Rio do Mundo, cujas margens são fertilizadas anualmente pelos seus transbordamentos...”
            Então o transbordamento de rios é uma coisa natural, que queiramos nós ou não, vai sempre ocorrer. Aprendi isto no meu Curso de Técnico Agrícola. Aliás, tive um Professor, Cavagnolli, que lecionava várias matérias, embora a principal fosse Topografia. Com ele aprendi a usar a baliza, o teodolito, fazer as plantas de terrenos, sítios e outras áreas. E aí, tem um ensinamento que nunca esqueço: como medir as margens dos rios, que normalmente são sinuosas, então tínhamos que fazer as medições das perpendiculares para traçar as curvas que o rio fazia. Achávamos difícil e  ele então dizia: “Pelo menos nas margens de rios não tem casas, pocilgas, galinheiros e outras construções, pois seriam todas inundadas...” Obvio, pois todos os rios inundam as suas margens.
            Além de tudo, quando chove – que vai encher o rio e transbordar – também é certo que as terras vão ficar úmidas, as águas vão penetrar no solo, para formação dos lençóis aquáticos, que seguram por algum tempo as águas, antes de correr para os rios e as cabeceiras destes. A terra absorve muita água que cai da chuva.
            Sabedor disso, Padre José de Anchieta, quando chegou à terra de São Paulo, viu o Tamanduateí, o Ipiranga, o Tietê, o Anhangabaú e muitos outros rios. Por isso fez a Igreja e a sua moradia lá no Pátio do Colégio. Bem lá em cima, onde não haveria perigo de nenhum daqueles rios – que ganharam os nomes que citei acima – inundarem suas construções. Deu para entender o raciocínio do Padre Anchieta? Ele, como eu, não era Engenheiro, Geógrafo ou Geólogo, mas sabia dessas coisas de inundações dos rios.
            Lembro-me perfeitamente quando Olavo Setúbal, foi prefeito de São Paulo, que “exigiram” dele providências contra as enchentes, ele disse: “Além das enchentes serem naturais, portanto não devíamos ter invadido o espaço dos rios, ainda por cima asfaltaram e concretaram todo o solo da cidade, de forma que as águas não penetram mais na terra, vão direto para o leito dos rios. Portanto, a única solução é sairmos das margens dos rios. As enchentes vão existir sempre. Além de tudo a população não colabora, e continua jogando tudo que é entulho nos leitos dos rios.”
            Por que estou escrevendo isso? Porque ouvi hoje pela manhã, na Rádio Jovem Pan, uma senhora da Vila Aurora, reclamando que toda vez que chove a casa dela enche! Diz achar um absurdo que não “canalizaram” o rio até hoje! Tenho ouvido jornalistas – que considero inteligentes e sérios – cobrando do prefeito “medidas para solucionar as enchentes”. Ainda teve um que complementou o comentário dizendo que o que falta é gestão, pois dinheiro tem!
            Vamos começar analisando pelas palavras de Olavo Setúbal, quando disse que a população não colabora jogando tudo que é entulho nos bueiros e leitos dos rios. Isto tem um nome: EDUCAÇÃO. Como já escrevi em um comentário político aqui no Blog: https://freitasnet.blogspot.com.br/2015/08/capacitacao-profissional-educacao.html , a Educação é fundamental para que o País saia dessa situação, onde a maioria do povo não tem condições de estudar e aprender os princípios culturais, que levam um povo a agir com a devida educação coletiva, respeito, ética, honestidade, moral e convivência coletiva. Por isso elege gente da pior espécie para fazer as Leis e para executar as Leis mal feitas. E estes escolhem aqueles que vão julgá-los e interpretar as Leis por eles elaboradas. Ora, não podia mesmo acontecer outra coisa, que não o que vem acontecendo no Brasil. Um Caos! Um povo que não sabe “jogar um papel no lixo”. Preste atenção quando andar pelas ruas. Repito: tudo começa com a Educação e temos muitos exemplos, além da Coreia do Sul que citei no meu artigo.
            Outro ponto a ser considerado é ver que os últimos governantes não têm culpa dos erros dos governantes anteriores, que canalizaram rios embaixo de asfalto, asfaltaram toda a cidade e permitiram a construção de edificações de concreto, tornando o solo totalmente impermeável. Inclusive nas margens dos rios – fizeram até pistas marginais aos rios! Ou seja, não agiram como o Padre José de Anchieta.  Então vem a pergunta: “Não tem mais solução?” Ter solução tem! Veja o exemplo de Tókio, que no começo dos anos 90 pôs em execução um projeto de túneis e canais de escoamento de água, que começam a cinquenta metros abaixo da superfície, com altura de até 68 m, e segura a água das chuvas até que amenizem os temporais, para depois soltá-las aos poucos nos rios.
            Só que para este gasto, teríamos que convencer os nossos, Legislativo, Executivo e Judiciário, além de uma grande parte do funcionalismo, de acabar com as mordomias e roubalheiras. Será isso possível? Em sendo possível, aí sim, concordo que a “gestão” seria a solução real do problema, não só das enchentes, mas quase todos os outros problemas que exigem “gestão”!
                                 Aula do Professor Cavagnolli 1962

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Futebol no Brasil

Registro do fato é fundamental!
Nicanor de Freitas Filho

            Domingo fui ao Colégio São Luis, ver um jogo de futebol do meu neto de 10 anos, que estuda lá. Não poderia deixar de ir, pois na semana passada, quando fui buscá-lo lá no Colégio, ele orgulhosamente me mostrou uma carta que tinha recebido do Setor de Esportes do Colégio. Era uma Carta de Convocação para os Jogos de Interamizade que fui ver.
            Durante o período que estava lá aguardando o início do jogo, fiquei lembrando do Livro que ele me trouxe em 2014, chamado: “Pontapé Inicial para o Futebol no Brasil” de Paulo Cezar A. Goulart. Também me veio à memória outro Livro: “Guia Politicamente Incorreto do Futebol” de Jones Rossi e Leonardo Mendes Junior. Ambos os livros tratam de futebol, obviamente!
            Todos sabemos, não só pelos livros, como por qualquer pesquisa que se fizer na Internet, que quem trouxe o futebol para o Brasil foi Charles Miller, que era filho de um funcionário da São Paulo Railway – empresa britânica que construiu e administrou as estradas de ferro no Brasil – e por isso foi mandado, com o irmão John Miller, para estudar na Inglaterra, em 1884 e lá conheceu, gostou e mostrou habilidades para o esporte que nascera há pouco, chamado de “football”. Na Europa era comum nas Escolas que além do ensino, também se ensinava e praticava esportes. Retornou ao Brasil no final do ano de 1894 – depois de dez anos estudando e jogando “football” – trazendo, segundo dizem, duas bolas de capotão e uma bomba para enchê-las, um par de chuteiras, bem como as regras escritas em 1863 pela Universidade de Cambridge, do referido “football”. Logo iniciou o processo de catequização dos britânicos, e outros amigos, que nos clubes de São Paulo, preferiam jogar críquete. Reunia os amigos ensinava e fazia sua peneira para formar o time da São Paulo Railway. E assim, no dia 14 de abril de 1895 foi realizado o primeiro jogo de futebol, devidamente registrado, com súmula e tudo, entre o time da São Paulo Railway que enfrentou o The Gas Works Team e venceu por 4 a 2. Este é o primeiro registro formal de uma partida de futebol no Brasil.
            No livro do Rossi e Mendes Junior, “Guia Politicamente Incorreto do Futebol”, nas páginas 28 a 31 eles tratam de um “outro precursor” do Futebol brasileiro, que seria o escocês Thomas Donohoe, que foi trabalhar na Fábrica de Tecidos Bangú, e ajudou a fundar o Bangú Athletic Club, já em 1903. Chegara ao Brasil em meados de 1894 e teria pedido para sua esposa e filhos trazerem material para jogar futebol. Ela e os filhos chegaram no Brasil em setembro de 1894, antes portanto de Charles Miller. Ele seria um centroavante de “espírito peladeiro” e logicamente não anotou nada. Portanto nada se tem registrado das “peladas” ocorridas no Rio de Janeiro. Eles falam também, nas páginas 23 e 24, sobre jogo, que seria futebol, jogado por marinheiros ingleses, franceses e holandeses nas praias do Rio onde hoje fica o Hotel Glória. Isto nos anos de 1875.
            Ainda no livro citado acima, eles tratam do futebol no Colégio São Luis, que ficava na cidade de Itú, São Paulo, mas não contam tudo que está no outro Livro que citei “Pontapé Inicial para o Futebol no Brasil” de Paulo Cezar Alves Goulart, que relata “O bate-bolão e os esportes no Colégio São Luis: 1880-2014”. Aqui neste livro, do Colégio São Luis, Editado pela A9 Editora, podemos observar muito mais coisas.
            Começa com a chegada do Padre italiano José Maria Mantero, em 1877, quando se tornou reitor do Colégio São Luis em Itú. Conhecedor dos métodos de ensino ligados à prática esportiva, trouxe para o São Luis várias melhorias, nos exercícios e jogos, como exercícios militares, ginástica alemã, lançamento de disco e de dardo, malha, salto em altura e distância, corrida de obstáculos, barra francesa, dentre estes a partir de 1880 o bate-bolão, com a bola então chamada de “ballon anglais”, ou bola de futebol! Seria o esporte precursor do futebol? Os alunos eram incentivados a chutar a bola contra as paredes e muros, mas como exercício e não tinha competição. Entre 1879 e 1891 o Padre Mantero teria feito várias viagens à Europa onde pode observar “a movimentação dos alunos nos pátios durante os recreios do Colégio de Vannes, na França, e da Harrow School, na Inglaterra. Era ali – juntamente com as informações obtidas com reitores , prefeitos e educadores desses colégios –, bem como em outros colégios, que estava a fonte para a renovação dos jogos e das atividades esportivas ao ar livre a serem implantadas no Colégio São Luis de Itu. E assim puderam presenciar, entre outras modalidades que ainda desconheciam, uma, denominada football, cuja instituição organizadora, a Football Association, havia sido fundada em 1863, na Inglaterra.” (Pág. 23) Mais adiante o livro traz: “Ainda não havia times (formação de equipes com 11 jogadores uniformizados), nem delimitação e demarcação de campo, traves e nem um conjunto de regras – conforme estabelecia a denominada Football Association. Assim, o bate-bolão, durante alguns anos, até 1887, foi praticado por alunos do Colégio São Luis – entre eles, o futuro presidente de São Paulo, Altino Arantes –, incentivados pela participação dos padres...” (Pág. 27)E finaliza: “Tratava-se de um 'futebol de caráter pedagógico', para o desenvolvimento físico, sem a preocupação da competição para as assistências, sob o controle de entidades dirigentes. Então, o que afinal eles estavam jogando?”(Pag. 27) Finalmente na página 29 conclui: “A brincadeira...,era uma forma de convívio inicial daqueles jovens com elementos imprescindíveis ao futebol, que os jesuítas viram ser praticado em colégios jesuítas europeus: uma bola feita especificamente para esse esporte, uso obrigatório dos pés para chutar a bola (não podia usar as mãos) a existência de um local para onde deveriam direcionar seus chutes – a parede ou as muretas da escola....prática absolutamente lincada com o futebol, e somente com o futebol, por meio de algumas regras e procedimentos... singulares e indissociados de um único esporte que então e assim se praticava: o FUTEBOL. E portanto: “...era um exercício destinado a constituir um treino para um fim bem definido: JOGAR FUTEBOL”.
             “Seria então o futebol...?” Pergunta feita no Livro...
            Bem, cada um tire as suas conclusões... Para quase todo mundo, vale o que está devidamente registrado. O Registro do fato é fundamental! Parabéns ao Charles Miller que soube organizar e registrar tudo!
            O fato é que fui ver o meu neto Guilherme jogar contra o Colégio Santo Agostinho e eles ganharam um dos jogos por 4 a 1 e perderam o segundo jogo para o Colégio Rosário. No jogo que venceram ele fez um dos gols – e eu vibrei – que o pai dele filmou e segue abaixo. Ele está com a camisa 8 vermelha.

          

domingo, 22 de outubro de 2017

Como tudo Começou...

Nicanor de Freitas Filho

            Tendo publicado o causo anterior do Yellow Legal Pad, fui questionado, por e-mail e WhatsApp sobre vários assuntos. Um deles eu já corrigi, que é o nome da rede de Lojas dos Estados Unidos, que é Woolworth e não Wentworth, como publiquei. Peço desculpas pelo lapso de memória! Na verdade Wentworth era o Hotel em que eu costumava ficar, na Rua 46, em Nova Iorque, por ser bem perto do Consulado do Brasil. Hoje esse hotel passou a se chamar The Hotel @ Times Square. Mas está lá do mesmo jeitão que era. A outra coisa que me questionaram foi a foto em que escrevi em baixo: “Como tudo começou Capas Artísticas da CMSP”. Querem saber o que vem a ser isso. Que se dê o nome, que explique o que começou! Então vamos lá. Se eu cometer outro “errinho” peço que o Oscar ou o Dr. Murilo me corrijam...
            Nos anos de 1976 e 1977 a Cia. Melhoramentos contratou vários artistas plásticos brasileiros para apresentar quadros que fossem exclusivos, inéditos e que pudessem ser reproduzidos nas capas de cadernos espirais, cuja coleção se chamou “Arte Aplicada”. E trazia, além das capas artísticas, uma minibiografia do autor e o método e material que ele utilizara para confecção da tela. Era realmente uma novidade e uma forma natural de divulgação da arte. Essas telas, depois de fotografadas foram emolduradas e colocadas numa “Galeria”, que era o corredor das salas dos Diretores da Melhoramentos. Não sei onde elas estão hoje, uma vez que o prédio está sendo reformado...
            Bem, o Dr. Murilo, que tinha muito conhecimento com vários artistas plásticos, e era amigo de um deles, o Sr. Nicola, que é autor de uma das capas, possivelmente através dele, fez contato com o Instituto Cultural Brasil Estados Unidos, que se interessou pelas obras e para a finalidade que foram feitas. Entenderam aquilo como uma manifestação cultural e divulgação de artes plásticas que era muito inteligente, pois os cadernos seriam utilizados por estudantes. Daí surgiu a ideia de se fazer uma Exposição dos quadros originais e das reproduções nas capas dos cadernos, lá na sede do Instituto Cultural em Washington. Para se ter uma “razão” de levar  as obras e convidar as pessoas para visitar a Exposição, foi feita uma atividade filantrópica. A Cia. Melhoramentos despachou cerca de duas mil unidades dos cadernos, que foram vendidos a por volta de US$ 5,00 cada, para ajudar ao Hospital Infantil de Washington. Ou seja, foi feita uma atividade cultural filantrópica e que teve muito sucesso.
            Logicamente a Melhoramentos não fez isto apenas para ajudar ao Hospital Infantil de Washington, mas foi também uma excelente maneira de introduzir e ao mesmo tempo testar a aceitação dos produtos nos Estados Unidos. Nesta operação descobriu-se muitas coisas e muitos interessados em importar “stationery” do Brasil por vários motivos. Um deles, obviamente era o bom preço, pois os produtos estavam enquadrados na lei que privilegiava certos produtos, de países em desenvolvimento, isentando-os do Imposto de Importação. Bem como o Brasil tinha uma Lei que não só isentava os produtos de todos os impostos, como ainda creditava o valor do IPI do produto exportado.
            Descobriu-se aí que os formatos dos nossos cadernos, bem como a pautação, a gramatura do papel, forma de comercialização eram bastante diferentes do Brasil, ou seja, teríamos que nos adaptar às exigências do mercado de lá. Foi assim que começamos a participar das feiras de produtos, principalmente em Nova Iorque, sendo a principal delas a “Back-to-School”, que era realizada sempre em meados de fevereiro, sempre com muita neve e frio, e, nos três primeiros anos acontecia no Colliseum – no cruzamento da Broadway com Central Park e Rua 59 – e depois no Javits Center, na 11ª Avenida, esquina com a Rua 34.
            Numa dessas feiras conheci o Sr. Dick Crawford, comprador da rede de supermercados Meijer, de Grand Rapids, Michigan, que gostou dos nossos produtos e propôs fazermos as capas com o nome da Empresa. Ele passou a vir ao Brasil todos os anos e descobriu que existiam outras fábricas de cadernos, que também passaram a participar das feiras. Então ele vinha ao Brasil, fazia um orçamento comigo, depois ia à Propasa fazia o mesmo orçamento e dizia que tinha os preços da Melhoramentos melhores. Então a Propasa baixava os preços para ele. Ia na Salesianos e fazia a mesma coisa. Ia na Tilibra e fazia a mesma coisa. A Tilibra, para pegar o cliente, baixava o preço para ele. Então voltava na Melhoramentos e me mostrava os preços da Tilibra e dizia que nem tinha negociado ainda. Poderia baixar mais. Então sentávamos, procurávamos acertar um preço para ele. Ele foi, por muito tempo, o melhor cliente que tivemos nos Estados Unidos.
            Até que chegou uma hora que tínhamos de resolver o problema e em conversa numa reunião na ABIGRAF, resolvemos formar um Consórcio para Exportação. Reunimos na sede da Melhoramentos, com Dr. Murilo, Sr. Anis Aidar e Anis Filho, da Propasa, Sr. Luiz Antonio da Tilibra e formamos o Consórcio, que se chamou PROTIME (PROpasa – TIlibra – Melhoramentos). E os nossos representantes nos Estados Unidos gostaram muito do nome. Lembro do Daniel Kendzie dizendo: “That sounds fine”.  Por motivos de antiguidade eu fui nomeado “Gerente do Consórcio Protime”.
            Na primeira visita que o Sr. Dick nos fez, após a criação do Protime, eu o atendi na Melhoramentos. Ele tinha marcado na Propasa à tarde. Quando chegou lá eu o atendi junto com o Sr. Sérgio. Na Tilibra, o dia seguinte eu o atendi juntamente com o Sr. Machado. Ele começou a rir e disse: “Vocês foram inteligentes, mas eu sei os preços que negociamos e vamos mantê-los. E, para mim é melhor! Vou ter menos trabalho...” Nota: melhoramos muito as margens de lucro dos produtos para nós, é claro!
            Não posso deixar de contar que logo depois de formar o Consórcio, fui apresentado ao Sr. Friedrich Dworak, da Trading austríaca Wipco, pelo Sr. Ocean que era Exportador da Cia. Suzano, e me foi pedido um orçamento muito grande. Não me lembro o número de cadernos, mas enchiam 88 containers de 20 pés e somava mais de um milhão de dólares. Era para um Príncipe Árabe abastecer seu território. E assim, pela primeira vez fui para Europa – embora já exportasse para lá, mas nunca tinha ido, sempre recebia as visitas aqui – fechamos um grande pedido de cadernos e as três fábricas trabalharam durante 60 dias e não conseguimos embarcar os 88 containers, pois a Carta de Crédito venceu e tínhamos embarcado somente 82 containers. Mas foi o maior pedido individual que consegui na Exportação de cadernos. Sei que no ano seguinte – e eu já não estava mais na Melhoramentos – foi feito um pedido ainda maior, pelo mesmo Príncipe, via Wipco. No dia que veio nos visitar, depois do pedido fechado o Sr. Dworack me trouxe um litro de whisky  Dimple Especial, que o tenho guardado até hoje, ou seja, há mais de 30 anos... Deve estar bom hein?       

 
            


                                                                                                           

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Yellow Legal Pad

Nicanor de Freitas Filho

            Eu trabalhei na Cia Melhoramentos de São Paulo, de 1977 a 1987, na área de Exportação, principalmente de Artefatos de Papel, que vem a ser cadernos, blocos, folhas pautadas para arquivos, ou os famosos “refills de 3 furos, para os americanos. É bom lembrar aos mais novos, que nessa época, usávamos blocos para escrever cartas, tomar nota de reuniões e os estudantes usavam escrever quase tudo que aprendiam nas aulas, em seus cadernos, que podiam ser “brochuras” para os menores, “espirais”, alguns mais sofisticados, ou folhas soltas para serem colocadas em arquivos. E o que eu vou contar aqui é muito mais antigo, pois começa no século XIX. Isto posto, na Melhoramentos foram dez anos de muita aprendizagem, principalmente com Oscar Destro Neves e Murilo Ribeiro de Araújo, além de outros excelentes e experientes colegas e muita diversão, porque não? Fiz nestes dez anos, quarenta e sete viagens para o exterior, sendo que os países que mais visitei foram os Estados Unidos, 16 vezes – se contar as vezes que fui só a Porto Rico – e 13 vezes ao Chile, o país onde fui mais bem recebido!
            No Chile além de ir para negociações, também ia para participar da FISA – Feira Internacional de Santiago. Nos Estados Unidos, também ia para negociações e teve anos que fui quatro vezes no mesmo ano, por causa das outras Feiras, embora a principal fosse a “Back-to-School”, participava de outras como “Gift Show” e “Stationery Show”, além de feiras que o Consulado nos pedia para participar, porque tinha alguma ligação com nossa área de papel.
            Na “Back-to-School” que era sempre em fevereiro e de curta duração – três dias – era a mais importante e no último dia, cujo expediente encerrava mais cedo, geralmente fazíamos troca das amostras que sobravam. Os americanos adoravam nossos cadernos espirais, com capas coloridas e artísticas, pois lá os cadernos eram todos de capas, geralmente de uma só cor, e somente com informações sobre o produto. Além dos cadernos outros produtos que gostavam muito eram dos pequenos bloquinhos de anotações, que geralmente eram denominados “mini pads”. Eu trazia muito papel de carta, tipo “Hallo Kitty”, Barbie, Disney etc. canetas, réguas e produtos como diários capa-dura com cadeados, e outros, pois sempre apresentavam novidades.
            Em 1979, no final da Back-to-School veio um dos participantes, que estava no estande da American Pad and Paper Company, que acredito ser uma das maiores no ramo, lá nos Estados Unidos, e me perguntou se eu produzia “Yellow Legal Pad”. O quê? Não sabia do que se tratava. Então ele me forneceu um pacote com 6 blocos, em papel amarelo, pautado em azul e com margem dupla em vermelho, num formato grande (8 ½’ x 14’) e me pediu para orçar cem mil unidades daquele bloco.
            Expliquei para ele que quanto à pautação, margens e formato, não via problemas, mas aquele papel amarelo não era comum no Brasil. Teria que ver com fabricantes. Perguntei se não poderia ser em papel branco apergaminhado, como chamamos o papel para cadernos e blocos. Ele então me explicou que aquele bloco era chamado de “Yellow Legal Pad” e que era muito utilizado nos Estados Unidos, principalmente porque ficou muito famoso, quando, em 1888, um Juiz de Direito, de Massachusetts, que despachava tudo em folhas de blocos chamados só Legal Pads – porque eram utilizados pelos Juízes – e que tinham aquele formato de 8 ½’ x 14’ e era realmente em papel branco. Mas que ele havia descoberto que alguns advogados (sempre eles) falsificavam principalmente prazos concedidos para defesa. Faziam isso passando um produto sanitário, que no Brasil chamamos de Cândida ou Qboa (hipoclorito de sódio), que apagava a letra dele e colocavam o prazo que queriam. Então, um senhor chamado Thomas Holley, que era conhecido fabricante de blocos de papel reciclado, resolveu o problema do Juiz, fabricando um papel amarelo, que se recebesse a Cândida apagava a letra, mas também ficava a mancha clara, quase branco. Ou seja, era praticamente, à prova das famosas falsificações. E me explicou ainda que o Juiz solicitou que se colocasse aquela margem dupla, vermelha, com distância de 1 ¼’, para que ele pudesse fazer anotações “à margem” do despacho dele.
            Achei muito curioso ele me dar aquela verdadeira aula de “Yellow Legal Pad” e me pedir um orçamento muito bom de cem mil unidades. Chegando ao Brasil, fui falar com o Oscar e o Dr. Murilo, este também diretor da Associação Brasileira de Fabricantes de Papel e Celulose. Falou com a Ripasa, grande fábrica naquela época, hoje pertencente à Cia Suzano, que se dispôs a fazer o papel amarelo, adicionando anilina amarela ao papel reciclado, para ficar mais barato. E aí começamos a produzir o famoso produto “Yellow Legal Pad” e nunca conseguimos exportar para a Amarican Pad and Paper Company, pois sempre queriam preço mais barato. Mas nosso cliente Agora International, de propriedade do Sr. Joseph Engel, não o maior, mas o melhor cliente que eu tive nos Estados Unidos, se interessou e fez uma primeira importação e conseguiu colocar na rede de lojas Woolworth, que é grande rede lá. Daí passou a pedir minipads também no papel amarelo e deslanchou de tal forma que as Papelarias brasileiras também se interessaram pelo produto, pois a Ripasa resolveu colocar o produto no mercado e outros fabricantes, principalmente Propasa e Tilibra também começaram a produzir inclusive para o mercado interno e o produto foi muito bem aceito, mas nos formatos brasileiros, principalmente o A4.  Depois descobrimos que nos Estados Unidos também se usava em outros formatos, como 8 ½’ x 11 ¾’, 8 ½’  x 11’ e 5’ x 8’e talvez foi o formato que mais conseguimos exportar para a Agora International do Sr. Engel. Esta é uma das contribuições de mercado que a Melhoramentos implantou e que pude participar. Esta era uma grande vantagem da Cia. Melhoramentos, a agilidade em desenvolver novos produtos.
Como tudo começou                                      Capa normal nos USA                Composition book
Capas Artísticas CMSP




                  Legal Pad - Mini Pad - Refills          Visita ao Sr. Joseph Engel em 1989 a passeio.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Amigo Secreto

Nicanor de Freitas Filho

            Nos quarenta e três anos que trabalhei, sempre houve nos finais de ano, as festas do “amigo secreto” ou “amigo oculto” como dizem no Rio de Janeiro. Sempre super- divertidas e muitas vezes difíceis de resolver dependendo do nome que você tirava... Nos últimos anos que participei, sempre era estabelecida uma faixa de preços para evitar “constrangimentos”. Lembro-me perfeitamente de um ano que, curiosamente um participante tirou o nome de quem tirou também o seu nome. Então na hora da entrega, um deles deu uma garrafa de cachaça ruim, com a curiosidade que a garrafa era toda amassada e segundo ele nem dava nem para guardar. Entretanto ele havia comprado para o seu “amigo” uma caneta Cross, que na época era cara para os padrões de amigo secreto. Naquele tempo – anos 70 – usava-se muito a caneta.
            Pois bem, tínhamos um colega na empresa, cujo apelido era “Bolinha” – lembra bem o Rodrigo Maia – e sempre muito “nervosinho” e vivia levando gozações. No jogo do amigo secreto, tirou o nome dele a chefe dos Serviços de Secretaria, que era muito divertida e criativa. Ela comprou de presente para Bolinha uma linda camisa social branca, pois era obrigatório o uso da gravata naquela época. Mas antes de entregar a camisa ela lhe entregou uma enorme caixa, provavelmente de um fogão, muito bem embrulhada com papel de presente, laço de fita e tudo mais. O Bolinha viu que não era um fogão, pois ela estava carregando a caixa. Ao desembrulhar encontrou uma caixa menor, também embalada para presente com laço de fita. Ao abri-la encontrou outra caixa menor e assim foram umas oito ou dez caixas, sempre bem embaladas até  chegar numa caixa menor que uma caixa de sapatos que parecia vazia, pois ele sacudiu e não fez barulho e estava muito leve. Ele pensou em jogá-la fora, mas não deixaram. Quando ele levantou a tampa, tinha uma “bolinha” de ping-pong, presa com fita adesiva. O “Bolinha” jogou-a no chão e sapateou sobre a caixa todo nervosinho... Depois de reclamar muito, no meio daquela papelada toda, a Secretária lhe entregou a linda camisa. Foi uma brincadeira muito bem bolada e executada, que nos fez rir muito. Inesquecível! 
            Anos depois, numa outra empresa, que ficava na Rua Quintino Bocaiuva, foi feita a festa do amigo secreto e foi estipulado o valor mínimo de Cr$ 30,00. Bem em frente a empresa, constantemente ficava um “Camelô-Ambulante”, que vendia um mundo de bugigangas, entre elas, uma Pantera-cor-de-rosa, de plástico que custava Cr$ 5,00. Essa empresa é a mesma em que ocorreu, um ano antes, a troca da garrafa de cachaça pela Caneta Cross. Então, lembrando-se do fato, o Contador da empresa disse, que pelo menos, não poderia ganhar a Pantera-cor-de-rosa, pois só custava Cr$5,00. Adivinha quem tirou o nome dele? A Secretária dele, que estava ao seu lado, quando disse sobre a Pantera-cor-de-rosa.  Ela comprou um par de sapatos que ele tinha visto e manifestado o desejo de adquiri-lo. Só que comprou também a Pantera-cor-de-rosa, e colocou-a junto com um saquinho de areia – para ficar pesado – na caixa do desejado sapato. Fez um lindo pacote de presente, com cartão e tudo mais. A tradição era que os presentes ficavam todos em cima da mesa de reunião e era sorteado o nome da pessoa que iria entregar o presente. Ele pegava o presente e dava algumas dicas sobre a pessoa que ia ganhá-lo. E só fazia a entrega quando o ganhador se descobria, com as dicas e se apresentava.
            Pois bem, a Secretária pegou a caixa de sapatos, falou alguma coisa sobre o Contador, ele por duas vezes chegou a se movimentar para se apresentar, mas ainda não tinha se convencido de que era ele mesmo. Até que ela deu a dica do sapato ele se apresentou, pegou o pacote todo feliz, estava pesadinho por causa do saquinho de areia e abriu o pacote. Quando deu de cara com a Pantera-cor-de-rosa, deitadinha em cima do saco de areia, a reação dele foi exatamente igual à do Bolinha – que ele nem conhecia – jogou no chão e sapateou sobre o brinquedo de plástico, destroçando-o... Não dava nem para levar de presente para alguma criança... Aí então, a Secretária pegou um saquinho, desses de cordão e entregou para ele o sapato desejado, antes que ele sofresse um infarto!
            Ambos, os presenteados – Bolinha e o Contador – ficaram muitos bravos, mas para nós que assistimos as brincadeiras, foi tudo muito divertido, tanto que não esqueço!

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recipes for Life

Nicanor de Freitas Filho

            Depois de trabalhar na Propasa, como Gerente de Exportação de Cadernos (https://freitasnet.blogspot.com.br/2017/07/cuiaba-fui-e-voltei.html), em 1994 fui trabalhar na OESP Gráfica, como Gerente Comercial. E era muito ativo no meu trabalho, não só porque gostava do que fazia, como tinha lá alguns conhecidos, da época da Cia. Melhoramentos, que aliás, foi um deles quem me indicou ao Diretor que me contratou. Eu me integrei muito bem à Equipe e por isso podia sempre opinar e solicitar algumas melhorias nos equipamentos e metodologias, para atender meus clientes. Naquela época, estava muito bom o mercado de livros Porta a Porta. E, graças a Deus, eu soube explorar muito bem esse mercado. É um mercado essencialmente de livros de Capa Dura. A máquina de fazer Capa Dura da OESP não era das melhores, assim solicitei que, se fosse possível, deveríamos trocá-la. Minha sugestão foi defendida pelos Gerentes de Produção e de PCP, pois eles sabiam a dificuldade que tinham na produção desse tipo de livro.
            Assim, nosso Diretor foi ao mercado, pois as máquinas novas da Kolbus eram realmente muito caras.  Ele encontrou uma empresa em Leeds, na Inglaterra, que se propunha a encontrar a máquina, reformá-la e vende-la à OESP. Passados uns 15 dias a empresa – não me lembro o nome dela – informou que encontrou a máquina que queríamos e estava em muito bom estado e precisava apenas de ajustes, pintura e maquiagem. Até estiveram nos visitando, antes de fechar o negócio (veja outro causo: http://freitasnet.blogspot.com/2011/07/causo-16-na-redacao-do-estadao.html ). Assim,  nosso Diretor queria que o Gerente de Produção fosse lá para ver a máquina, antes de fechar o negócio. Como ele não falava nada de Inglês, eu fui escalado para ir junto com o Gerente de Produção e o Chefe da Manutenção, que era quem realmente entendia de máquinas.
            Fizemos um voo até Londres, de lá fomos para Leeds, no Aeroporto de Bradford, onde nos esperava a secretária do dono da Reparadora de máquinas. Fomos até à Oficina de Reparos e após o almoço, fomos conhecer a máquina Kolbus de Capa Dura, numa Gráfica que estava comprando uma muito maior e por isso estava disponibilizando a antiga para comercialização.
            Lá na Gráfica, o Chefe da Manutenção, abriu sua caixa de ferramentas, foi para debaixo da máquina checando as partes mais importantes, para ver o seu funcionamento. Enquanto isto, fiquei conversando com o Gerente da Gráfica, pedindo mais explicações, de porque estavam vendendo a máquina,  e pedi para ver os produtos fabricados nela. Ele me levou a uma sala e me mostrou, principalmente Dicionários, feitos na máquina. Quando voltamos à Gráfica, eu me encostei na máquina, enquanto o nosso funcionário e o Gerente de Produção trocavam ideias, e eu puxei a capa de lona que protege a parte da aplicação de cola quente, e deparei-me com um bonito livro de Capa Dura. O Gerente me explicou que aquele foi o último livro produzido naquela máquina que já estava parada por mais de seis meses. Perguntei se podia ficar com o livro, ele disse que sim e ainda brincou, que seu eu gostasse de culinária, era um livro de receitas escolhidas só por gente “muito famosa”! Frisou bem o muito famosa! O título é “Recipes for Life”. Eu trouxe o livro comigo e após dar aquela olhada de gráfico, que lê só as orelhas, contracapa e dá uma passada de olhos na matéria, fiquei impressionado, pois tinha receitas da Lady Di, Príncipes, Princesas, artistas famosos como Elizabeth Taylor, Anthony Hopkins, Brooke Shields, esportistas como Jackie Stewart, Chris Evert, políticos como George Bush, Ronald Reagan, Margareth Tatcher, Tony Blair e até o Mr. Bean, que dá uma receita que a cara dele: “cozinha o feijão, amassa bem para formar uma pasta e passa em duas fatias de pão torrado...” (não é a cara dele?). Então coloquei-o na minha estante principal no escritório, para que todos o vissem.
            Um dia foi lá nos visitar um Gerente de uma Editora e outras duas pessoas, clientes da Editora, que tinham encomendado a impressão de um livro para uma Seguradora presentear seus clientes. Como era um livro que foi editado em três línguas, com muitas fotos do Barroco Brasileiro, eles queriam acompanhar a impressão. Uma dessas pessoas, não sei se da Editora ou da Seguradora, viu o livro e ficou impressionado. Disse que conhecia o livro que teve uma edição limitada por uma ONG escocesa e que conhecia colecionadores que pagariam até trezentos dólares pelo livro. Perguntou se eu queria vender e até insistiu comigo. Mas pela minha posição na empresa, pelo relacionamento profissional daquele momento, nem pensei e disse que não.  Curiosamente ele ainda me ligou do Rio de Janeiro para dizer que falou com a pessoa que tinha interesse e que pagaria sim os trezentos dólares. E eu repeti que não tinha interesse. Guardei esse livro sempre com um carinho especial, até porque valia trezentos dólares...
            Um dia desses, um amigo me ligou para saber como conseguiria um livro de poesias de Paul McCartney, impresso na Inglaterra já há algum tempo. Eu entrei nestes sites de sebo internacional e encontrei o livro que meu amigo queria e também o  “Recipes for Life”, por trinta e um dólares. Veja a grana que eu perdi... Ou os colaboradores famosos perderam a fama ou as receitas são todas iguais a do Mr. Bean...





domingo, 27 de agosto de 2017

O Meu Pião

Nicanor de Freitas Filho

            Como já contei, minha infância foi muito pobre e eu gostava muito de brincar, então tinha que usar da criatividade para obter os “brinquedos”. Papagaio, ou pipa, eu conseguia “fabricando” para os outros meninos e cobrava em folhas de papel de seda. Pra isso eu tinha, desde pequeno, um canivete que quando o meu padrinho Tarcísio me deu, arredondou a ponta dele no esmeril, para não correr risco. Mas era um ótimo canivete, que mantinha o corte sempre afiado, pois era de aço inox mesmo! Apesar de usá-lo mais para fazer as varetas de bambu, com ele eu fazia quase tudo. Além de papagaio, gostava muito de bolinha de gude, que eu ganhava jogando a valer! Jogo de botão – e naquele tempo era de botão mesmo – que a gente ganhava ou arrancava das capas das tias e primas, ou então fazia com casca de coco, raspando no cimento. Finca, aro, hélice, estilingue, carretilha e outras coisas o padrinho Tarcísio fazia para mim. Outros brinquedos, como peteca, béte (ou taco), ioiô, bilboquê os amigos tinham e nós brincávamos juntos. Uma coisa eu não conseguia ter, e gostava muito, que era o pião. Mesmo não tendo, eu sabia como brincar e pegava na mão sem jogar no chão, fazia passar por cima dos fios de eletricidade, mas não tinha o meu pião. Em casa eu improvisava, jogando um vidro, que chamávamos de “tinteiro” porque era o vidro da tinta de molhar das marcas Sucuri, Borboleta ou Trevo, pelo formato. Quem tem mais de 65 anos sabe do que eu estou falando. Eu conseguia enrolar a fieira e fazer rodar aquele vidrinho no chão. Minha avó Dinha me pedia para rodar o vidro, para todas as pessoas que a visitavam, pois ela achava aquilo de uma criatividade ímpar!
            Na casa que eu morava, que era da minha avó, tinha um quintal grande com muitas frutas. Lembro-me de abacateiro, amoreira, mangueira, figueira, goiabeira, laranjeira, araçazeiro, bananeira, pé de fruta do conde, pessegueiro e muitas outras árvores, onde brincávamos quase o dia todo. Teve um ano, que minha Tia Suça – que também morava lá – recebeu uma proposta de vender toda a colheita dos dois abacateiros e assim chegou um caminhão na porta de casa e vários homens entraram e foram apanhando os abacates e jogando dentro de um caminhão. Estragaram tudo, pois colhiam e transportavam sem o menor cuidado, ficando o quintal cheio de folhas e estragaram todo o araçazeiro e a goiabeira, que ficavam mais perto dos abacateiros, além da roseira e do pé de jasmim que ficavam no caminho para a rua. Deixaram um rastro de destruição...lamentável!
            Depois que eles foram embora, fiquei lamentando o vandalismo que fizeram nas nossas frutas. A goiabeira foi quebrada, mas deve ter sido cortada com um facão, pois ficaram lá vários galhos e o tronquinho – ela não era grande – que deveria ter cerca de 7 ou 8 cm de diâmetro e aquele pedaço cortado era bastante “cônico”. Ficou bem no meio da parte mais larga, uma ponta, que parecia mais forte, uma espécie de miolo duro. Era um pedaço de madeira curioso, pois estava com aquele miolo no meio do tronco, que afinava bastante, na parte de baixo. Quando peguei aquele pedaço de madeira, olhei-o e vi ali uma “piorra”. Se eu cortasse a parte de baixo e a afinasse um pouco mais, até fazer uma ponta, poderia tentar fazer daquela parte que ficou no meio do lado mais grosso, o suporte para os dedos apoiarem para fazê-la rodar. Examinei bem, peguei o canivete de fazer varetas e comecei a burilar aquele pedaço de madeira. Diminuí a parte central e vi que a madeira era muito dura. Passei o fio do canivete no tanque de cimento, para afiá-lo e fui tentando cortar a parte de baixo, para ficar com uns 9 ou 10 cm de comprimento, para fazer minha piorra.
            Acredito que trabalhei o resto do dia tentando afunilar aquele pedaço de tronquinho de goiabeira. Como para construir os papagaios eu tinha muita paciência para fazer e alisar as varetas, com o canivete, também ali fui trabalhando com calma. Quando fui acertar a parte de cima, acho que cortei com força e arredondou a quina que eu queria deixar. Aí eu fui arredondando, arredondando e achei que aquilo estava mais parecido com um pião do que com uma piorra. A madeira era dura, machucava meus dedos, mas eu não desistia. Todos os dias eu pegava minha peça e trabalhava um pouco nela. Eu já tinha visto que dava para fazer o formato de um pião, mas de vez em quando eu errava e tinha que diminuir um pouco o diâmetro. Sinceramente, eu não sei quanto tempo eu fiquei brincando com aquele pedaço de madeira, tentando dar-lhe uma forma de pião. Talvez mais de um mês ou até dois.
            Um dia, quando já tinha conseguido fazer a “cabeça” do pião – onde amarra a fieira – comecei a pensar como eu faria a ponteira, que geralmente é parecida com uma ponta de um prego, mas lisinha, não muito fina. Depois de quebrar a cabeça e não surgir nenhuma ideia, resolvi levar para o padrinho Tarcísio ver se colocava uma ponta no meu pião. Ele elogiou, mas disse que precisava melhorar aquilo. Mandou que eu fosse no vizinho da oficina, que era uma oficina de reparo de móveis de madeira e pedisse para o Sr. José de Souza dois pedaços de lixas, uma mais grossa e uma mais fina. Pedi ao Sr. José de Souza e ele quis saber para que. Quando mostrei-lhe o pião ele disse que ia me ajudar. Prendeu e grampeou os pedaços de lixas num toco quadrado para eu “esfregar” o pião, que segundo ele seria mais fácil de segurar para trabalhar, e, me mostrou como fazer o serviço.
            Depois de machucar toda a mão, pois, ao esfregar, escapava e pegava na lixa, principalmente a parte de trás do polegar, não desisti, fui até conseguir um formato parecido com um pião. Aí, então, levei para o padrinho Tarcísio fazer a ponta.  Ele pegou a peça, examinou, disse que precisava de uns ajustes e conseguiu melhorar o formato do pião, com as lixas. Cortou a ponta da parte de baixo e pensou em bater um prego para fazer a ponteira. Mas me disse que iria rachar a madeira. Depois de muito quebrar a cabeça, resolveu pegar a furadeira, fez um furo ali para colocar o prego, mas aí teve uma outra ideia e em vez do prego, meteu ali um parafuso de madeira, para evitar que rachasse. Depois foi para o esmeril e fez a ponteira do pião, esmerilando a cabeça do parafuso, sem deixá-la muito fina, para poder rodar normalmente no chão. Pronto! Agora tinha o “MEU PIÃO!”

            Nota: nunca rodou normalmente. Ficou meio “cambeta”. Ele era mais usado para servir de começo de brincadeira, no meio da roda... Guardei esse pião junto com meu time de botão, bolinhas de gude e uma finca, quando fui para Muzambinho, numa caixa, no fundo de um guarda-roupa. Quando voltei e fui procurar meus brinquedos todos tinham sumido...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Promessas

Nicanor de Freitas Filho
Lembro que morava numa casa não muito grande, não muito velha, simples. Na entrada tinha um portãozinho, um muro baixo, e entre o muro e a casa – que ficava mais à direita – um jardim bem cuidado, onde se destacava um pé de dália, daquelas grandes, que quando atingiam o auge, pendiam para o lado.
A casa era da minha avó Dinha, ou Dona Clorinda Palhares Cardozo. Morava nessa casa, a Dinha, minha Tia Suça – irmã da minha Mãe – que era solteira e trabalhava como Caixa em um Armazém e nós. Não me lembro em que ano, ela foi convidada a dar umas aulas numa fazenda perto de Santa Juliana e ficou muito amiga das filhas do fazendeiro, que a tinha contratado. Elas foram visitar a Tia Suça várias vezes e eram muito simpáticas. Lembro-me bem delas.
A Mãe delas, contava que quando se casou, com o Fazendeiro, num início de ano, foram passar a Lua de Mel em Poços de Caldas, no carro do Fazendeiro. Sofreram um acidente na estrada, no dia 6 de janeiro e ela teve o útero perfurado. Não foi tão grave, mas o médico disse que ela poderia não conseguir engravidar, pois o útero estava razoavelmente danificado. Ela então conta que fez a promessa de que, se engravidasse, ela colocaria os nomes dos Reis Magos, nos filhos, por causa da data de 6 de janeiro. Quando nasceu a primeira filha, ela então colocou o nome de Gasparina – feminino de Gaspar – e era um nome até usado. Eu mesmo conheci mais de uma Gasparina. Quando nasceu a segunda filha, ela já teve que improvisar: Belchiolina – feminino de  Belchior – que praticamente não é usado. Mas vá lá! Quando nasceu a terceira filha, não teve alternativa, feminalizou o nome de Baltazar e chamou-a Baltazarina! 
Nós, crianças, achávamos engraçadíssimo os nomes delas: Gasparina, Belchiolina e Baltazarina... Ríamos muito. Se, pelo menos, fosse nos dias de hoje, que chamam todas as meninas pela primeira sílaba, ainda poderia quebrar o galho: “Gá”, “Bel” e “Bá”, mas não. Naquela época eram Gasparina, Belchiolina e Baltazarina... 
Fomos morar em Uberaba onde ficamos quase um ano, voltamos para Araxá, e, pouco mais de um ano depois, meu pai conseguiu ser Corretor de Seguros da Seguradora Minas Brasil, na cidadezinha de Veríssimo, no final de 1952. Eu estava no segundo ano do Grupo Escolar. Fomos morar, se me lembro bem, na Rua Presidente Vargas, 348. Em frente à nossa casa morava Dona Sinhana (não sei se é assim que se escreve), viúva que tinha três filhas, cujos nomes eram: Fé, Esperança e Caridade.
Na frente da casa dela, o que seria o jardim da casa, tinha um pé de cará-do-ar, que é uma espécie de planta trepadeira, cujo fruto cozido e amassado com açúcar é uma sobremesa deliciosa. Pelo menos achávamos, pois nossas opções eram poucas. Então íamos quase todos os dias pedir para Dona Sinhana uns carás-do-ar (e nós falávamos “caraduá”) para nossa sobremesa... E ela sempre com muito carinho, nos ajudava a apanhar os carás-do-ar para a Mamãe cozinhar.
Minha Mãe contava que um dia perguntou para ela, o porquê dos nomes das filhas, e ela explicou que quando se casou, seu marido tinha tido sífilis e o médico teria dito que ele não poderia gerar filhos, pois tinha-se tornado estéril. Naquela época se casava para ter filhos. Então, ela que era muito católica, fez a promessa, que se o marido se recuperasse ela poria os nomes de Fé, Esperança e Caridade nas filhas. Minha Mãe admirou muito a “fé” daquela senhora, que não só conseguiu realizar seu sonho, como cumpriu sua promessa. Mas lembrando-se da Gasparina, Belchiolina e Baltazarina, Mamãe perguntou a ela, como faria se tivesse nascido três filhos. Ela respondeu de pronto: “...seriam João da Fé, José ou Antônio da Esperança e Pedro ou Paulo da Caridade!” Eu nunca me esqueci dessa história que minha Mãe contava, mesmo porque achava de muita criatividade a resposta dela, para o caso de nascerem homens, em vez de mulheres!


Esta é a casa que moramos no Veríssimo. Só foram trocadas as janelas e construído um segundo murro, mais alto. Esta foto é de 2005 quando fui passear lá. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Meu Primeiro Par de Chuteiras

Nicanor de Freitas Filho

            A Escola Agrotécnica de Muzambinho, nos anos que lá estudei, fornecia aos alunos dois conjuntos de roupas, que não vou chamar de uniforme, porque na verdade eram duas calças e duas camisas “Far West” – pra quem não sabe a Far West é precursora do jeans atual – um par de botinas mateira ou brogó, como alguns diziam, além da roupa de cama, tudo numerado e eram lavados pela Lavanderia da Escola. Quando saíamos de férias entregávamos tudo na rouparia, inclusive as botinas, que deveriam estar limpas, porque poderia ir para outro aluno no ano seguinte.
            Minha família era muito pobre e minha Mãe só podia me enviar Cr$ 100,00 por mês, cuja nota que eu recebia dentro de um envelope transparente, para aparecer o dinheiro e não ter como roubarem. Era igualzinho hoje! Não me lembro se foi no final do ano de 1958 ou 1959, na hora de entregar minha botina, não tinha o que calçar. Minha conguinha,com a qual eu tinha ido, estragou e não tinha dinheiro para comprar uma nova, muito menos um par de sapatos.  Fiquei numa situação complicada, mas tudo naquela Escola tinha solução. Pois tínhamos Amigos!
            Quando eu jogava bola – e era um perna de pau – jogava com chuteiras emprestadas por algum dos colegas. O que mais gentilmente me emprestava era o Régis. A chuteira estava velhinha, mas ainda assim jogava com ela, pois era em campo de terra batida mesmo! Ela já estava quase sem as travas, toda esfolada...
            Então tive uma ideia! Propus ao Régis, que me vendesse a chuteira velha por CR$ 5,00, que era o que eu tinha. Ele, não sei se de dó, ou se ia mesmo jogá-la fora, me vendeu pelos CR$ 5,00 que eu tinha. Arranquei as travas que restavam e consegui um par de cadarços pretos, que a fez virar um verdadeiro “sapato”, com o qual eu viajei, que foi ótimo na minha viagem para casa!
            Chegando em Araxá, minha Mãe viu aquilo, riu, elogiou pela “criatividade” e falou para eu levá-la na Sapataria do Sr. Elpídio, velho amigo e sapateiro que nos atendia, ele certamente daria um bom tratamento nela. De fato, ele recolocou as travas, passou aquela tinta preta milagrosa, que deixou a chuteira novinha. Ainda a usei por muito tempo. Em 1960 cheguei a jogar no Segundo Time da Escola e várias vezes a usei e sempre achava muito boa. Também foi a única que eu tive, pois uns dois anos depois que comecei a usar óculos, com mais de dois graus e meio de miopia, em 1958, parei com o futebol e passei a me dedicar mais ao Tênis de Mesa e Xadrez.
            Não posso deixar de contar que minha maior façanha, como jogador de futebol, foi ter participado do Time do Grená, em 1960, na Escola Agrotécnica de Muzambinho, no campeonato interno de 6 times (Grená, Branco, Amarelo, Vermelho, Verde e Azul) e ter sido Campeão, tendo o direito de fazer o jogo contra a Seleção do Resto, no dia da minha formatura, que foi parte das festividades oficiais, onde recebemos as faixas de Campeões de 1960, das respectivas madrinhas.




        Em pé da esquerda para direita:  Montipó (Mário Rogeri), Baurú, Nicanor, João Lúcio, Zé Braz (Daniel Camilo), Ildeu, Tião Canjica. Agachados: Canco Mole (Luis Alcino), Celsinho (Celso Pereira de Almeida), Oswaldo Tiveron, Banterli, Geraldo e Josmar (Paloma). (Foto de 08/12/1960)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Primeira lembrança da Política

Nicanor de Freitas Filho

            Em 1.950, fomos morar em Uberaba, MG, na Rua Padre Zeferino, não me lembro o número, mas era em frente a uma venda/bar, e mais a esquerda ficava a oficina de acumuladores (baterias) do Romeu Moreno e seu irmão.
            Lembro-me pouca coisa daquela época, mas algumas são muito importantes, como dos carros, motos e bicicletas, que passavam na rua, jogando cédulas eleitorais, para propaganda dos políticos, candidatos à Presidência da República. Na verdade, só me lembro de ver cédulas de Getúlio Dorneles Vargas e Eduardo Gomes. Geralmente tinham dois tipos de cédulas, umas num papel tipo jornal, que usávamos para fazer aviõezinhos e outras em papel melhor, branco, que usávamos para fazer canudos, aqueles de soprar. É que naquela época, a eleição era feita em cédulas de papel, que eram colocadas dentro do envelope, que iam para as urnas. Não me lembro bem, mas acho que se votava para Presidência e Vice-presidência em separado. Então se tinha muitas cédulas. Dava para brincar muito. Eu estava então, com 6 anos e ainda não estudava.
            Um fato marcante foi que, às vésperas das tais eleições, o Dr. Getúlio, que então era Senador, foi fazer um comício em Uberaba, cujo prefeito era o Dr. Boulanger Pucci, que foi ao Aeroporto para recepcioná-lo. Parecia uma festa em Uberaba, pois o Dr. Getúlio tinha “governado” o Brasil por 15 anos, de 1.930 a 1.945, na verdade uma Ditadura – muito dura – mas ele era ainda um “mito” político. Lembro-me então, que meu Pai chegou em casa, mandou minha Mãe colocar roupa de domingo em nós – lembro-me de minha Mãe grávida, com uma barriga enorme – e fomos para o comício na Pça. Rui Barbosa. Estávamos, acredito que na Rua do Comércio, com a praça lotada, que não conseguíamos chegar lá, brincando e, provavelmente, chupando bala Chita, ou tomando picolé de groselha, que eram as coisas baratas que podíamos ter. Meu Pai se afastou um pouco com alguns companheiros, talvez o Tio Santo também e ficamos ali no meio daquele povão, com muito calor, que não é novidade em Uberaba. De repente, meu Pai chegou correndo pegou em nossas mãos e disse, vamos embora que deram um tiro no Prefeito Boulanger Pucci. Isto aqui está perigoso! E fomos embora, sem festa e com medo. (momento marcante)
            Pesquisando agora na Internet, descobri que tal fato se deu no dia 10 de setembro de 1950. Meu irmão Luiz nasceu no dia 24 de setembro de 1950. Imaginem como deveria estar minha Mãe, quatorze dias antes de dar à luz. Esta é a primeira lembrança que tenho da política brasileira.
            Resultado é que o Dr. Getúlio ganhou as eleições de Eduardo Gomes e voltou a governar o Brasil até o dia 24 de agosto de 1954, dia em que se suicidou. Nesse período, criou duas das mais importantes estatais para o Brasil, a Petrobras e a Eletrobras, mas levou o Brasil pelo caminho “nacionalista-estadista” do mal sentido, quase que comunista, principalmente quando convidou João Goulart – o Jango – para o Ministério do Trabalho, que como primeiro ato, propôs o aumento salarial de 100%, o que irritou os empresários e principalmente ao Deputado da UDN Sr. Carlos Lacerda, que sem dúvida, foi o mais duro adversário de Getúlio.
            Getúlio, foi o mais populista dos Presidentes do Brasil, antes do Lula. Já na época de sua Ditadura, tinha criado muitos benefícios aos trabalhadores, a CLT, os sindicatos, com toda estrutura financeira e sempre procurava um jeito de ganhar o “povão”. Por isso ele arranjava muita “encrenca” com a classe empresarial. Carlos Lacerda fazia uma pressão muita dura, como deputado que era e conseguiu angariar uma antipatia, muito além da política, de Getúlio Vargas. Pois este, além de populista, era sabido que fazia muitas coisas erradas, que naquela época, ficava tudo escondido.  Chegou ao ponto de o Deputado Carlos Lacerda sofrer um atentado, cujo executor foi o Gregório, o principal guarda-costas de Getúlio. Com isso os políticos começaram a pressioná-lo para renunciar, para que o Tribunal Superior não tivesse o constrangimento de julgá-lo, pois todos sabiam de sua participação, ou no mínimo, seu conhecimento dos fatos. Ele foi ficando acuado e quando foi no dia 24 de agosto de 1954, suicidou-se, com um tiro no peito. De qualquer forma foi um trauma muito grande para a nação, creio que até para Carlos Lacerda.
            Isto é o pouco que me lembro do primeiro Presidente da República do Brasil, que “me presidiu”. Sei que assumiu o Vice-presidente, Café Filho, que também não ficou até o fim do mandato. No Brasil sempre foi assim!!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Cuiabá, fui e voltei

Nicanor de Freitas Filho

            Fui morar em Cuiabá, fiquei lá dois anos, mas o problema econômico do Brasil, no Governo Sarney foi terrível, principalmente para o ramo em que fui trabalhar: imobiliário! Plano Cruzado, Plano Bresser, Plano Mailson, planos e mais planos econômicos, foram todos lastimáveis. Acabaram com o Brasil. Tive que voltar para São Paulo. Vim trabalhar numa fábrica de material de artigos de festas, que era ligada ao Palácio dos Enfeites, famosa rede de lojas desses artigos. Vim para trabalhar na exportação dos produtos.
            A fábrica, que era mais conhecida como “Reizinho”, ficava em Itaquaquecetuba, um pouco afastada da cidade, então era melhor usar o refeitório da fábrica, mesmo porque, naquele tempo não tinha bons restaurantes por lá. Mas acontece que um dos irmãos, proprietários da fábrica, tinha comprado um terreno colado à fábrica, onde fez, digamos assim, uma casa de campo, que tinha um salão/bar, com mesa de sinuca profissional e tudo muito próprio para se divertir. Então ele acertou com a empresa que servia a comida para os funcionários, para servir lá na casa dele, para alguns privilegiados. Assim ele, o irmão, sobrinho, eu e outros funcionários, da Moóca que iam à fábrica e também alguns clientes, fornecedores ou gerentes de bancos eram convidados a almoçar lá.
            O dono da casa, Sr. Jayme, é muito espirituoso e “gozador” e todas as vezes que ia um convidado novo almoçar conosco, era certo que ele preparava a piada e sempre acontecia, pois ele provocava o ambiente para isto. Ele adorava uma picanha ou um porco à pururuca, mas tinha o colesterol muito elevado e tomava remédio. Então dizia que se já tomava remédio para o colesterol, podia comer picanha. Sempre ele pegava a bandeja de salada e oferecia a todos e ia passando. Voltava nele e ele insistia com mais alguém, mas não se servia de salada até que uma hora o convidado perguntava: “O senhor não come salada, Sr. Jayme?” Na hora ele respondia: “Não, tornei-me ecológico agora, não como nada verde e, se tiver algum bicho que come o verde, eu como o bicho para ele não comer mais o verde”.
            Como era muito difícil exportar aqueles produtos, devido ao volume (uma tonelada chegava a ter dez ou doze metros cúbicos) fui gerenciar uma fábrica de papel higiênico em Poá, que depois mudou para Diadema. Fiquei lá por dois anos, mas não era meu negócio. Queria exportação! Meu amigo Sérgio Moreira, hoje vivendo no Chile, que foi quem me indicou para a Reizinho, trabalhava na Propasa, fábrica de cadernos, que tinha participado do Consórcio de Exportadores de Cadernos que eu gerenciei antes de ir para Cuiabá. Ele estava deixando a Gerência de Exportação de Cadernos para ir para a Exportação de uma fábrica de papel, que é o que ele faz até hoje, só que agora lá no Chile. Então fui para o lugar dele, na Propasa, que eu já conhecia por causa do Consórcio de Exportação e era amigo dos donos, principalmente do Sr. Anis e do Anis Filho, que foi quem me contratou.
            No segundo dia que eu estava trabalhando na Propasa, o Sr. Anis mandou  me chamar à sala dele. Disse-me: “ Oh Freitas, que bom que agora estamos juntos. Será muito bom trabalhar com você!” Eu fiquei todo feliz e começamos um papo, sobre mercado, sobre produtos, sobre exportação, sobre minha ida para Cuiabá, quando então eu falei para ele: “Se arrependimento matasse eu já teria morrido! Não sei o que fui fazer em Cuiabá!” Imediatamente ele me interrompeu e com toda sua vivência e experiência me disse: “Nunca diga que se arrependeu de algo que você fez. A gente só se arrepende do que deixou de fazer! Pense bem, você poderia estar sentado aqui na minha frente, como está agora e me dizer: ‘...pois é Sr. Anis, há seis anos atrás, eu tive uma excelente oportunidade, quando fui convidado a ir para Cuiabá e não fui, agora estou aqui, de novo, exportando cadernos...Pense no quanto de experiência você adquiriu lá...’” (Momento realmente marcante).
            Aprendi com ele nessa mensagem e nunca mais me arrependi de nada que fiz, tirando proveito do que aprendi com os erros. E aprendo até hoje!

terça-feira, 11 de julho de 2017

Como os Juízes te assaltam...

Este vídeo, foi copiado do Blog Vespeiro, de Fernão Lara Mesquita, mas como ele incentiva a divulgar, estou postando aqui no meu blog também... Assistam e por favor, preparem-se para não dar vômitos!


sábado, 8 de julho de 2017

Delícia de Pudim

Nicanor de Freitas Filho
           
            Estudou comigo na Escola Agrotécnica de Muzambinho, um araxaense que quase todos os conterrâneos devem tê-lo conhecido. Não só por ter sido um dos fundadores da Academia Araxaense de Letras, mas também foi Vereador, era um político culto além de Poeta e um excelente violonista. Foi ele quem me introduziu no mundo do violão. Aprendi com ele os primeiros acordes e depois muitos outros. Éramos muito amigos, formamos chapa para eleição da Diretoria do Grêmio da Escola e nas férias, eu frequentava a casa dele, que era ali na Rua Cônego Cassiano, logo no primeiro quarteirão, onde tinha um “larguinho”. A casa tinha um terreiro enorme, com muitas frutas. Estou falando do Gilberto Augusto Silva, filho de Dona Maria Aparecida Montandon Silva.
            Acredito que Dona Aparecida, teve dez filhos, sendo quatro mulheres e seis homens. Creio que o Gilberto era o penúltimo. Com certeza tinha três irmãs que eram mais velhas que ele. Dona Aparecida, sua Mãe, era muito espirituosa e brincalhona, e estava sempre alegre. Tenho a lembrança dela sempre sorrindo e brincando. Aí pelo final da década de 50, as três filhas já estavam namorando firme e acho que uma delas já estava até noiva. Ela então, sugeriu às filhas que, para os futuros genros se conhecerem melhor, ela faria um almoço e convidaria os três genros.
            E assim se fez. Ela preparou uma bela macarronada no domingo e convidou os futuros genros para o lauto almoço. Foram muito bem recebidos, ela, como já expliquei, sempre muito alegre e divertida. Sentou-se à cabeceira da mesa e fez questão de servir, não só aos futuros genros como as filhas também. Não estou muito certo, mas me parece que ela mandou os outros filhos almoçarem na casa de tios ou de outros parentes, para não estarem lá e não perturbarem a recepção, muito bem planejada, com cuidado e carinho.
            E ela os deixou muito à vontade, puxando os assuntos – ela era muito culta e  instruída – para que eles não ficarem tímidos, sem saber o que se poderia conversar. Enfim, ela manteve o controle total do evento mostrando-se uma anfitriã muito receptiva a agradável, para que eles ficassem sempre na zona de conforto.
            Terminada primeira etapa, isto é, o prato principal, ela foi buscar a sobremesa, que era um lindo pudim, grande para se comer à vontade, mas sem calda. Mas estava muito vistoso. Ela, novamente fez questão de servir a cada um dos futuros genros um generoso pedaço do pudim.  Cada um comeu seu pedaço e ela, perguntou se estava bom. Todos responderam que sim. Então ela educadamente ofereceu mais. O primeiro agradeceu, disse que estava satisfeito e ela sem cerimônia, lhe disse: “Estou vendo que você não gostou nada! Só falou que gostou para me agradar!” Ele logo disse que não, que estava muito gostoso e acabou aceitando mais um pedaço. Os outros dois percebendo que ela não os perdoaria, nem esperaram que ela fizesse o “mise en scène” e já aceitaram outro pedaço assim que ela ofereceu. E, segundo ela contava, teve um que ainda comeu mais um terceiro pedacinho, pela insistência dela.
            Terminada a sobremesa, ela se levantou e disse: “Vocês homens e namorados são mesmos uns fracos, fingidos e bajuladores (só faltou chamá-los de ‘bundões’). Eu derreti farinha de milho no café coloquei na forma de pudim e nem caldo eu fiz, para não adoçar, e vocês comeram e repetiram essa ‘porcaria’ de café com farinha de milho, só para me agradar! Seus puxa-sacos!” E caiu na risada, deixando-os constrangidos e extrovertidos ao mesmo tempo! Mas ela completava o causo dizendo que foi muito bom, porque eles se tornaram amigos dela de verdade, depois da “pegadinha” do pudim...

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Ida para Cuiabá

Nicanor de Freitas Filho
            Outro dia me perguntaram por que eu fui morar em Cuiabá. Vou tentar explicar, sem citar nomes para não constranger ninguém.
            Trabalhei numa empresa por dez anos. Era Gerente de Exportação de uma das Unidades. A empresa tinha várias unidades. Quando começamos exportar os produtos dessa Unidade que eu trabalhava, já existia um Departamento de Comércio Exterior, que cuidava de toda parte administrativa e financeira – exportação e importação – da empresa toda. Analisava, Cartas de Crédito, fechava câmbio, conferia documentação, fazia toda a parte de Faturas Pro Forma, tratava também das importações, de maquinário e peças e até alguma matéria prima, enfim, tudo que chamamos de parte burocrática. Era gerenciado por uma senhora muito competente e que já estava na empresa há muitos anos. Meu Departamento cuidava só da área Comercial e Pós Venda. Isso era no final dos anos 70 e começo dos anos 80 e o Brasil vivia uma crise danada, mas o Governo Militar incentivava a Exportação. Logo outra Unidade começou a exportar produtos específicos dela e criou-se outro Departamento Comercial de Exportação. Mas a documentação também era feita pelo Departamento de Comércio Exterior.
            Nessa época foi contratado para a Superintendência do Grupo, um “Gringo”, que não falava muito bem o português e nem entendia muito da administração brasileira. Eu, teoricamente, não tinha nada a ver com ele, pois abaixo dele tinha um Diretor da Unidade, abaixo do Diretor um Gerente Geral de Marketing e Vendas, ao qual eu era subordinado. Mas não é que depois de uns tempos esse gringo vinha dar ordens diretamente para mim? Eu nunca gostei disso, e antes de tomar qualquer providência informava ao Gerente Geral ou ao Diretor da Unidade. Mas ele adorava “me encher o saco”. Fez-me fazer uma viagem ao Paraguai, quando eu estava de licença médica, com uma vista só, em 1983, por ter operado de catarata, com problema no olho direito, que ficava tapado, em decorrência de uma grande hemorragia, para fazer uma cobrança – que todos sabíamos – o problema era do Paraguai que não liberava os pagamentos ao exterior. Mesmo assim, interrompi a licença e fui. Não adiantou nada!
            Um dia ele reuniu os três gerentes dos departamentos ligados ao Comércio Exterior e disse que estava os unindo. Muito bom! Precisava mesmo ser unificado. E nós até entendíamos que a Gerente do Depto. de Comércio Exterior unificado, deveria ser a senhora que era  a mais velha e mais antiga de casa, conhecendo muito mais que nós.  Mas ele disse que não! Ela iria para Secretaria da Presidência, ou melhor, de toda Diretoria. Muito bem, então quem vai ser o Gerente? Não precisa definir, vocês se entendem. Afinal são só 14 funcionários e vocês conhecem todos e conhecem o que tem que ser feito, além de serem amigos! Tá bom ou quer mais?
            Na verdade eu sempre me dei muito bem com o Gerente Comercial da outra Unidade e fazíamos muitas coisas em conjunto. Mas assim, sem ter um responsável? Não! Não poderia dar certo. A partir daquele momento, fui conversar com meu Diretor – estava sem o Gerente Geral de Marketing – e me posicionei contrário àquela atitude estranha e totalmente fora dos padrões da empresa e da época. Os produtos da Unidade que eu trabalhava, estavam começando a cair no mercado internacional e mesmo no nacional, tanto que depois de quatro ou cinco anos a fábrica desses produtos foi vendida. Mas o fato é que eu passei a não me sentir bem, como me senti por dez anos. Era uma posição esdrúxula, sem chance de discutir o problema, pois meu Diretor era muito de por panos quentes e levar do jeito “maneiro” até ter uma solução.  Acredito que ainda fiquei por quase um ano levando a coisa assim, na esperança de resolver. Mas nada acontecia.
            Aí surgiu um motivo maior para me desestimular. O tal superintendente contratou um assessor para área de organização e métodos, que, entendo, foi instruído a me encher o saco pra valer. Pois ele só queria falar comigo, não tratava praticamente nada com o outro Gerente, meu colega.  Aí, pedi para meu Diretor me demitir, pois não queria ficar sem sacar o tal FGTS de dez anos. Ele disse que ia ver. Demorou quase dois meses e nada. Então cobrei e ele me disse que não tinha motivo para me demitir e demissão não era assim tão fácil, como ele explicaria à Diretoria, me dispensar sem motivo? Eu disse para ele que ia dar um motivo. Ele, me conhecendo bem, me disse para ir com calma. Na primeira vez que o assessor veio à minha sala para me “dar instruções” sobre novas normas eu simplesmente mandei-o para um lugar que ninguém vai, mas a gente manda, para demonstrar raiva ou desrespeito. Disse que estava muito ocupado e era para ir falar com o outro Gerente, pois eu cuidava só da parte comercial. Ele ficou sem reação, e, claro que foi falar com o superintendente.  Este, que provavelmente já esperava algo assim, foi direto no meu Diretor reclamar da minha “falta de educação”. No que ele aproveitou e disse, segundo me falou depois: “É o Freitas anda meio nervoso mesmo. Acho que podemos tocar o Departamento sem ele.” Mesmo porque, meu colega e eu, tínhamos preparado tudo para minha saída.
            Fazia tempo que tinha uns amigos de Cuiabá que haviam me convidado para administração de duas Construtoras e uma Imobiliária, pois ambos tinham lá em Cuiabá esse Grupo, para justificar residirem em Cuiabá, pois o que tinham mesmo para ganhar dinheiro eram suas fazendas. Uma delas com oitenta mil pés de seringueira.
            Para prestigiar meu amigo Valdemar Coimbra – colega de Muzambinho, do qual não tinha notícias há mais de 57 anos e descobri agora que está morando em Jataí – vou contar um pedacinho da minha viagem para Cuiabá, que se deu no dia 18 de maio de 1987 e tive que ir sozinho, pois minha filha estava no terceiro ano do ensino médio e não tinha como transferi-la no meio do semestre. Eu tinha um carro VW Gol BX cinza. O mais pé de boi que já tive. Para se ter uma ideia, tinha minha mala grande, para viagens internacionais que não coube no porta mala. Teve que ir no banco traseiro. Planejei sair pela manhã, para e almoçar na casa de meu irmão em Frutal-MG (500 km), descansar um pouco e dormir em Jataí-GO (mais 500 km). Tinha que dormir bem para enfrentar no dia seguinte os 700 km até Cuiabá. Correu tudo bem. Fiquei um pouco mais do que queria em Frutal, batendo papo com os familiares, e rumei para Jataí. Ficou escuro e eu não gosto de dirigir à noite, pois uso lentes de mais de 10º por causa da cirurgia de catarata que fiz, na época que ainda não se fazia implante de cristalino. Já chegando em Jataí, por volta das 20:30 h, sozinho no carro, pouco movimento na estrada, quando avistei as luzes de Jataí de cima de um morro. Nisso, iniciei uma descida e eu já fazendo as contas da hora que teria que levantar no dia seguinte, quando, na descida, sumiu a cidade da minha vista. Pensei comigo mesmo: deve ser um morro bem alto para tapar assim toda a cidade, que não consigo ver nada. Sumiu tudo. Ficou tudo muito escuro. Como estava com faróis altos, não tinha problema. Toquei em frente. A cidade não aparecia mais na minha área de visão. De repente vi que cheguei na cidade mas estava tudo escuro do mesmo jeito que quando vinha pela estrada. Verifiquei que já estava em uma avenida e vi dois senhores numa esquina. Parei e perguntei o que estava acontecendo. Um deles, educadamente, me respondeu que era um “apagão”, mas também não sabiam do que se tratava. Então perguntei por um hotel e me disseram que naquela mesma avenida três, quarteirões adiante, tinha o Hotel Rio Claro. E foi lá que fiquei. Tomei banho frio, por falta de eletricidade, à luz de velas, lembrando-me dos chuveiros das Escolas Agrotécnicas, sempre gelados! Mas logo depois do banho, voltou a eletricidade e pude descer para jantar. No dia seguinte levantei cedo e me fui, rumo a Cuiabá, onde morei por dois anos.